As tentações de Santo Antão

Flaubert, Gustave
ILUMINURAS

119,00

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  Pode-se ler este livro como uma alegoria: o deserto em que vagueia o anacoreta, por entre penhascos e areia, tudo povoado por fantasmagorias e alucinações, é também o da literatura, aquele espaço literário, já esvaziado, repleto de tentações, e que Maurice Blanchot, num gesto de pura e absoluta genialidade, soube ler, de modo tão preciso quanto complexo, como etapa decisiva na formação da chamada literatura moderna.   Alias, seria toda uma outra e longa história pensar no deserto com o espaço formador da própria literatura: neste caso, deserto é, ou pode ser, sinônimo de recusa e de negatividade, uma das categorias fundamentais, como se sabe, do moderno em literatura e nas artes.   É um arco tenso: desde o que há de desértic o na Mancha, de Cervantes e do comovente Cavaleiro da Triste Figura, até aquele dos tártaros de Buzatti. Ou aquele capaz de provocar o aparecimento de um pomar às avessas, como está no João Cabral de Melo Neto de Psicologia da composição.   A tensão do arco se desfaz, no entanto, pela entrega às tentações da positividade que são os significados sem risco: a aceitação da literatura que diz, com certeza, algumas coisas já consumidas pela tradição literária.   Flaubert sabia disso e a primeira grande tentação era aquela do conhecimento enciclopédico que viria eliminar o deserto por uma acumulação impiedosa de livros e saberes cuja maior crítica ele haveria de realizar em Bouvart e Pécouchet.   Este livro deix a ver, de modo incipiente, como cabe a obras iniciais, traços dessa resistência e, por que não dizer, dessa luta sobre-humana em prol da recusa e do risco.   Não é a isso que se chama de flaubertiano, por excelência, a essa luta pelo esvaziament o de um espaço que deve ser assumido pelo rigor quase suicida da linguagem?   A história foi contada em detalhes por esse admirável Maxime du Camp no quinto capítulo de suas ricas Souvenirs littéraires (1822-1894), intitulado precisame nte “La tentation de Saint Antoine”.   Gustave Flaubert convocara dois amigos, Maxime e o poeta Louis Bouilhet, para ouvir, sem direito a interrupções, a leitura do novo livro que ele terminara de escrever, depois de anos de trabalhos que envolv iam pesquisas históricas e religiosas volumosas e rigores estilísticos. Trabalhos tão exigentes que chegaram a por em perigo a saúde do jovem escritor, o que motivará a viagem que fará, em seguida, ao Oriente.   Reuniram-se no retiro flaubertian